Hoje o dia amanheceu com chuva e eu acordei ranhosa. Vesti calções e quando saí do quarto vi que estava a chuviscar. Pensei trocar para umas calças, mas depois pensei que o mais certo é serem uns chuviscos sem importância. E foram. Claro que me arrependi de ter vestido calções quando cheguei ao Conselho Municipal e percebi que a sala de reuniões estava tipo frigorífico, com os ares condicionados todos ligados.


Pensei: “A sério gente, não está calor, para que é este exagero de frio dentro de casa?”. Mais tarde, quando deviam estar umas sessenta pessoas dentro da sala, percebi que de facto o ar condicionado se justificava, desta vez.

Aprendi que Quelimane se diz “Chuabo” em dialeto local e “chuabo” é justamente o nome do dialeto que se fala aqui, diferente do dialeto local que se fala na restante Zambézia.

Visitámos dois bairros à tarde. Tudo nos bairros parece ter sido improvisado à medida que foi sendo preciso e lá encontra-se barraquinhas e mercados para tudo, desde o salão de cabeleireiro “Nas Calmas” à barraquinha da Vodacom ou à oficina de bicicletas. Diversidade de serviços e produtos não falta. Depois há as casas. Umas em barro e canas, outras em madeira, outras em cimento com um ar muito precário e inacabado… Há estradas largas, tipo avenidas, com buracos do tamanho de hoje e ontem. Percebi porque é que na cidade circulam tantos carros todo o terreno, só mesmo com um se suporta um pouco melhor a circulação por aqueles caminhos.




Vi as pessoas. Muita gente a circular nas ruas a toda a hora. Muitas crianças com uniforme da escola. Muitas crianças sem uniforme a brincar entre as casas e os coqueiros. Não resisti a fotografar umas quantas, a mostrar-lhes as fotos, a fazer cócegas nos miúdos que estavam a fazer o pino contra a parede. Ao passar pelas casas vi pessoas deitadas no chão. Vi casas vazias de conforto. Vi a vida tal como ela é, por aqui. Vi também crianças nas escolas sentadas no chão a ter aulas. Aparentemente já é uma sorte terem sala de aulas! Vi tudo isso e soube que o executivo do mandato anterior desviou para os seus bolsos todo o dinheiro que era para ter sido aplicado em investimento público. E as pessoas ali, nos bairros, sem iluminação, água ou outras coisas tão básicas e essenciais!

Não sei o que sinto em relação a tudo isto. Estou indignada com a fragilidade desta democracia em que o executivo se apodera daquilo que é dinheiro público e sai impune por conta de sistemas judiciais corrompidos. Já sabia que há crianças em África sem cadeiras para se sentar na escola, mas ver fez-me perceber que é real, acontece. Está a acontecer agora, bem perto do hotel onde estou sentada com um netbook no colo a escrever na esplanada.





No meio de tudo isto, resta-me pensar que ainda bem que estou aqui a participar (ainda que muito passivamente – estou ainda a prender mais do que a agir) neste processo de Orçamento Participativo. Bem vistas as coisas, pela primeira vez as pessoas de Quelimane vão poder decidir o que é que o executivo vai fazer pelo seu bairro com uma parcela do dinheiro do orçamento anual. Isso parece-me agora, mais do que nunca, uma coisa importante. Faz sentido nesta realidade, mais do que em qualquer outro lugar da nossa Europa "civilizada". 

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