Ensaio sobre a ansiedade

by - 2.6.14

Ser ansiosa é uma das minhas características. A única que considero uma coisa má, ou pelo menos a que mais me aflige. À conta disto de ser ansiosa já fiz psicoterapia por 2 anos. Achei que me tinha ajudado a conhecer-me, a saber lidar com isto, a não ter medo, a controlar-me. Se calhar ajudou. Se calhar ainda preciso de mais para me organizar melhor... Se calhar não preciso de controlar-me... talvez seja isso que faço mais, vezes de mais! Ou não... não sei!

Hoje estou ansiosa. Não a ansiedade normal que nos embrulha o estômago e deixa um ligeiro nervosismo e desconforto. É mais forte do que isso. Provoca tensão nos músculos e tremores pelo corpo, como se estivesse com frio estando ao mesmo tempo com calor. A minha psicóloga disse-me uma vez que a ansiedade não mata, mas que causa muito sofrimento por vezes. Bom, eu sei que não mata. Que alívio! Mas sim, dói. Faz doer a alma, o corpo, a cabeça... inquieta de uma forma que nem consigo explicar.

Ando a tentar perceber porque estou assim. Por isso é que estou a escrever, para organizar as ideias, mais ou menos como faria se estivesse a falar com um psicólogo. É quase como se encontrar uma justificação já fosse meio caminho andado para resolver o problema! 

Bom, recapitulando alguns episódios marcantes da última semana... 

a) Vim de viagem. Duas semanas num país totalmente desconhecido, rodeada de estranhos e muito tempo passado sozinha. Muitos filmes para ver, livros para ler e tempo para pensar... diz um dos heterónimos do Fernando Pessoa, o Alberto Caeiro, que "pensar é estar doente dos olhos". Não me esqueci desta frase desde que a aprendi porque me faz muito sentido. É mais ou menos isso... eu não posso pensar muito. No meio de todas as minhas reflexões e dilemas existenciais (que são uma constante), tem que haver muita acção, muita novidade, porque tenho medo de me aborrecer da vida. Há uma inquietação constante em mim. 

Em viagem senti-me bem, tirando umas duas noites em Maputo em que descansei mal, já no fim da viagem. Sentia-me excessivamente cansada e com sono, mas sem conseguir adormecer, demasiado incomodada com os sons da cidade. Acho que era um primeiro sinal de qualquer coisa, ou de um cansaço que vem da viagem, ou de uma vontade de voltar para casa, ou do peso da responsabilidade pelo trabalho que estava a fazer e que ia ter que continuar a fazer de regresso a casa. Esta viagem a Moçambique coincidiu com um ponto de viragem a nível profissional e poderá ser isso que me está a incomodar... as responsabilidades acrescidas no trabalho. Mas, por outro lado, talvez nem seja por aí. Quais responsabilidades acrescidas? Nos últimos 7 meses eu estava a cuidar de 14 crianças e jovens de idades diferentes sozinha, o que poderá ser mais complicado que isso? Ficar no computador a tratar de papelada e projetos? Não sei... acho que não! Ou será receio de ficar entedeada, "esquecida" atrás de uma secretária? Não sei... ou insegurança por tarefas que posso não conseguir cumprir? Mas eu não sou incompetente, ou insegura... sei bem aquilo que valho profissionalmente e a polivalência torna-me capaz de me adaptar a muitas situações. Já trabalhei em muitos sítios diferentes e sempre fui competente. Talvez não seja isto que me incomoda...

b) A primeira coisa que fiz depois de aterrar foi ir ao cemitério abraçar uma amiga de infância e a família, porque a avó dela morreu. Não consegui assistir à cerimónia, mas consegui aterrar a tempo de mostrar àquela gente que é quase uma extensão da minha família o quanto gosto deles. Já era uma morte anunciada a daquela avó, mas nunca há-de ser fácil lidar com a perda de alguém de quem se gosta. Foi uma descarga de emoções abraçar a minha amiga num momento assim, mas ainda bem que consegui estar presente. Ninguém me ia cobrar a minha ausência, mas eu ia, inconscientemente.

c) Um dia depois de vir de viagem bati com o carro. Pela primeira vez tive um acidente por culpa minha. Bati no carro do velhote à minha frente. Estávamos parados no stop e ele avançou, eu avancei atrás e olhei para o lado para ver se vinham carros. Afinal ele mudou de ideias porque viu uma mota e resolveu não se meter à estrada. Bati-lhe. Fomos civilizados, entendemo-nos e tratámos da declaração amigável sem chamar a polícia. O meu seguro paga o arranjo do carro dele mas não o meu, porque não tenho seguro contra todos os riscos. São quase 500€ de arranjo por um farol partido, pintura do pára-choques da frente e um pouco de bate-chapas e pintura do capô. Eu não me preocupei com o acidente, foram prejuízos materiais, mas pensando bem, foi mais um ponto a acrescentar a uma semana atribulada. 

d) A minha tia, uma delas, está doente. Temos andado a tentar perceber o que se passa. Parece que agora finalmente, depois de um mês, está a começar a mostrar alguns sinais de melhoras, após a última ida ao hospital. Verdade que andei preocupada com ela na viagem e também que fiquei impressionada quando voltei na semana passada e a vi tão debilitada. Acho que senti receio por ela, por mim, pela minha família... medo que nos aconteça alguma coisa... gosto de nós como somos, unidos e de bem com a vida. Acho que fiquei atormentada com a ideia de que alguma coisa aconteça para nos derrubar. Parece que isto é uma ideia recorrente. A de que tudo é demasiado perfeito, tudo está bem encaixado. E a imprevisibilidade da vida talvez seja o que mais me inquieta. Durante os últimos anos tenho andado numa espécie de rodopio do carpe diem. A evitar fazer grandes planos a longo prazo, a viver de pequenos projetos. Coisas a longo prazo causam ansiedade, ficamos desejosos que aconteçam! Quando confrontada com a doença da minha tia percebi mais uma vez que a vida é mesmo imprevisível e que não podemos escapar-lhe. E que a magia da vida é essa mesmo, a de não sabermos o que vai acontecer daqui a dois segundos. E é isso que é igualmente assustador. Parece-me assustador agora...  

e) A minha mãe deu um jeito às costas e ficou meio cabisbaixa durante uns dias. Ora aí está outra coisa que me deixou preocupada. Nós chateamo-nos muitas vezes, mas ela é um pilar da minha vida e só nos chateamos porque temos feitios muito idênticos em alguns aspetos. Na verdade ela é essencial na minha vida e às vezes tenho medo de só perceber isso nestes momentos, em que ela está menos bem. Tenho que aprender a usufruir mais da companhia dela.
    
Bom, não sei. Bem vistas as coisas, a semana passada não foi fácil. Tudo pode ter contribuído um bocado para este estado de ansiedade e o cansaço generalizado. Depois de vir de viagem há o regresso à normalidade e muita coisa a acontecer ao mesmo tempo... se calhar não é bem o regresso à normalidade... coisas mudaram entretanto, estas e outras que não escrevi... e no entanto só passaram duas semanas! Acho que ainda estou a tentar encontrar-me... ou a tentar perder-me no meio de tudo o que anda a acontecer em mim e à minha volta!

E depois há uma última coisa importante... hoje é segunda-feira! E não é à toa que eu comprei uma t-shirt que diz: "I'm not a monday person". Ora aí está! Tenho uma certa tendência para o drama à segunda. Deve ser isso!

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