E quando eu for velha?

by - 12.12.14

Em pleno café, depois de acabarmos de lanchar, o meu avô tirou a sua dentadura da boca e pediu à minha avó que a guardasse, com a maior naturalidade do mundo. A minha avó calmamente, pediu-lhe que a guardasse ele, um pouco chateada com a situação inconveniente. Eu achei piada e dei comigo a sorrir enternecida a olhar para eles.


Neste momento o meu avô está a voltar a ser criança, perdendo cada vez mais a sua capacidade cognitiva. Reconheço-lhe os olhos grandes e meigos, mas percebo neles um alheamento que me é estranho. Vejo um pouco dele na forma como sorri para mim quando me vê e me chama de neta, mas estranho-o em outras pequenas coisas que diz ou faz.

Questiono-me, ao vê-lo, sobre como serei eu quando tiver a idade dele. Imagino-me uma velha daquelas cheias de genica, a fazer ginástica para me entreter, voluntariado, bricolage e outras coisas muito parecidas com as que faço agora, mas num outro ritmo. Apesar de não me projectar ainda a ter filhos, não consigo ver-me a longo prazo sem ter constituído uma família grande (o que às vezes me parece um contra-senso!). Imagino-me como sou agora, dinâmica e feliz, mas com rugas, com uma forma de estar na vida muito parecida com a da minha avó Julieta. Imagino-me a ler um livro num jardim, com uma roupa clara vestida e um ar sereno e tranquilo de quem sabe tirar o melhor da vida. Quero que seja assim e espero conseguir na vida dar os passos para que assim aconteça.

Por outro lado, agora que chego aos trinta (é já no mês que vem) vejo que algumas das coisas que tinha pensado para mim quando me projectava com esta idade, ainda não aconteceram. Há sonhos adiados. Há outras coisas que nem eram sonhos, mas que aconteceram de forma inesperada e foram importantes. A vida é isso mesmo não é? Podemos projectá-la, mas temos que saber aceitar e perceber os desvios e vê-los de uma forma positiva. Afinal de contas, é também nos desvios que a vida nos traz, ou que nós próprios proporcionamos, que nos definimos. É naquilo que não projectámos, que está, muitas vezes, a riqueza daquilo que são os momentos que vivemos. 

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1 comentários

  1. É uma fase complicada, quando já se perde um bocadinho a noção... mas é bom que sintas essa ternura pelos mais velhotes. :)

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