Ao que me parece a minha adolescência aconteceu com a dose certa de dúvidas, questionamentos, sofrimento e descoberta. Calculo que, à luz de outras adolescentes da minha altura, fui uma privilegiada porque não me sujeitei a grandes birras, teorias da conspiração, ataques de insegurança crónica ou crises existenciais. Eventualmente passei um pouco por tudo isto mas em doses tão pequenas que não se transformaram em momentos necessariamente fracturantes. A complicação que pode ser a adolescência, no meu caso, foi aligeirada por uma família que soube impor limites sem que eu desse por eles e um grupo de amigos que me protegeu e não exigiu que eu fosse nada mais do que aquilo que já era.

Isto de ser adolescente tornou-se divertido quando, ao chegar ao secundário, percebi que podia ser na vida quem quisesse e a verdade é que queria ser eu mesma, independentemente dos outros. Esse deve ter sido o meu acto mais extremo de rebeldia: o ousar ser! Acto fácil porque tinha as costas quentes, protegida por tudo e todos e genuinamente rodeada de afectos. Assim é mais simples experimentar-se e crescer-se. Com isto, tive em mim, a partir de determinada altura, o desejo de ser, de existir e de me descobrir, ainda que isso significasse ser um pouco diferente. Diferença marcada sobretudo pelo visual, pela música que ouvia e pela aceitação do que era alternativo. A verdade é que, no meio daquilo que hoje acho que eram caprichos ou tentativas de marcar a diferença e chamar a atenção por isso, havia algo profundamente verdadeiro em mim e que se mantém até hoje, que é uma descomplicação na forma de olhar e aceitar o outro. No meio da experimentação e do desafio da adolescência, descobri isso em mim e tornou-se tão forte que se manifesta até na profissão que escolhi.

Não obstante tudo isto, percebo agora que o que sempre quis mesmo foi "ser crescida". Por mim teria passado por cima da fase de todas as indecisões, inseguranças e dúvidas existenciais e saltado no tempo para o agora. Não que isto de se ser adulto seja o expoente máximo da vida, com todas as responsabilidades e tudo mais que acarreta, mas há outra maturidade para encarar os percalços e tira-se muito mais proveito das pequenas coisas da vida. A adolescência, mesmo sem grandes dramas, é uma fase inegavelmente marcante!

2 comentários

  1. Normalmente não é assim tão pacífico. Sortuda :)) bjinhos

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    1. Houve uma fase que não foi nada pacífica, quando no fim do secundário comecei a ter uns ataques de ansiedade e acabei por ter que andar enrolada em médicos. Fiz até psicoterapia para aprender a lidar com o que quer que fosse que me atormentava. Não referi isso porque a minha reflexão foca-se mais nas relações e nesse aspecto fui uma privilegiada, de facto. Quanto ao resto, foi importante porque ensinou-me a perceber-me melhor e a analisar-me de outra forma. Sobrevivi e muito bem :)

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