Quando eu era pequenina os avós estavam sempre presentes. Lembro-me do cheiro a pão acabado de sair do forno, amassado pelas mãos da avó Julieta. Ela deixava-me fazer os bolos de canela e eu gostava de os moldar com forma de coração. Se calhar vem desse tempo eu gostar tanto de fazer massa, de usar o rolo de cozinha para a estender, de encher as mãos de farinha. Quando o faço hoje em dia dou frequentemente por mim a sorrir. Uso o velho rolo de estender a massa da avó Ju.
  
Lembro-me da mesa cheia na casa da avó Albertina e o meu prato preferido era o arroz de cabidela, numa altura em que era inocente demais para saber que aquilo se cozinhava com sangue de galinha. Consigo ainda imaginar o avô João sentado ao canto na cozinha, no lugar do costume, a fumar os seus cigarros feitos à mão, muitas vezes ausente da sala onde nos juntávamos. Não me lembro de ele me dizer coisas nem de o ver particularmente a fazer algo de especial. Tenho sempre essa imagem dele sentado e contemplativo. Acho que tenho isso dele em mim. Hoje já não gosto de arroz de cabidela, mas ainda acho que poder juntar a família ou os amigos à volta de uma mesa é do melhor que há na vida.

Quando eu era pequenina, houve um certo dia em que uma vizinha disse ao avô Manuel que tinha recolhido um cão abandonado e perguntou se queríamos ficar com ele. O avô pegou em mim e lá fomos estrada a fora até à casa da vizinha para conhecer o cão. Tínhamos combinado os dois que só ficávamos com ele se fosse macho. Chegámos lá e era lindo mas destroçou-me o coração quando a vizinha disse que se tratava de uma fêmea. Desatei a chorar mas não insisti porque era o que tínhamos combinado e sabia que assim não podíamos ficar com ele. Regressámos estrada a fora desconsolados, eu sempre a chorar sem mendigar que o avô voltasse atrás. Sabia o que tínhamos combinado. Passado um pouco de estar em casa o avô Manuel disse que ia ao barbeiro. O barbeiro ficava um pouco mais abaixo, também ali na vizinhança e ninguém estranhou. Quando voltou o avô Manuel não tinha o cabelo ou a barba mais curtos, mas trazia a cadela consigo. Chamámos-lhe Diana.   

5 comentários

  1. Memórias que ficam e nos deixam de sorriso nos lábios. Tão bom :)

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  2. Emocionei-me e vieram-me mesmo as lágrimas aos olhos ao ler este teu post e relembrar a nossa infância! Ainda me lembro da Diana e de lá irmos na carrinha do teu avô com ela e o Carocho para a serra! :) Belos tempos! Beijinhos***

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    1. É verdade. Antes de começar a escrever isto vieram-me tantas memórias à cabeça! Fomos tão felizes na infância!

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  3. Fomos mesmo felizes sim! E somos do tempo de uma "infância saudável" e ao ar livre! Infelizmente, os moços hoje em dia não sabem o que é isso.

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