Esta semana a notícia acerca do decote pronunciado que a Carolina Patrocínio ousou usar no casamento da irmã e o programa "E se fosse contigo", na SIC, acerca da homofobia, fizeram-me pensar que, neste país, ainda somos mentes tacanhas face àqueles que ousam aceitar-se e ser felizes na diferença e com a diferença (o que me parece extremamente libertador).

Eu própria que, por defeito profissional, vou tendo oportunidades para desconstruir preconceitos, no domingo passado dei comigo a observar um rapaz com gestos afeminados curiosa para saber o que haveria de saltar dali. Não o gozei, não o descriminei, não pensei "coitado tem que se ir tratar", mas achei-lhe uma certa piada e chamou-me a atenção.

A verdade é que, não raras vezes, o que é diferente causa estranheza, curiosidade ou mesmo, no caso de algumas mentes menos treinadas, repulsa. Na verdade as próprias palavras "estranho", "diferente" ou "normal" já representam um bico de obra, pois encerram em si tanta subjetividade que nem deveriam ter discussão. Seja o que for, todos temos padrões de normalidade incutidos e o estarmos perante algo que vai contra os mesmos não nos dá, no entanto, o direito de nos sentirmos incomodados com isso ou, se dá, não nos dá via verde para sermos intransigentes e mal educados com o outro. Em último caso que nos salve a velha máxima de que "a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro". Há que respeitar as características diferenciadoras. No fundo é tão simples quanto isso!

Vejo esta questão do espaço (o meu espaço, o espaço do outro) como uma bolha. Uma bolha que nos permite ter uma área livre à nossa volta onde podemos respirar e movimentar sem estarmos diretamente atarraxados aos outros milhões de pessoas com quem partilhamos o mundo. Logo, eu tenho uma bolha à minha volta e se o que faço na minha bolha (ou a minha bolha em si) não está a chocar direta e física (ou verbalmente) com a bolha de um outro alguém, então ninguém deveria ter nada a ver com isso.

Acontece ainda que entre bolhas (que são o nosso espaço individual) existe o espaço público, aquela área que no fundo pertence a todos e não pertence a ninguém. Ora entre o espaço da bolha e o público ainda sobra bastante terreno livre para nos movimentarmos nesta sociedade sem que estejamos em confronto com os outros. Não vos parece? Logo, aquilo que alguém decide usar, fazer ou até mesmo ser dentro da sua bolha não deveria ser um problema para os outros.

Acontece que é, para algumas pessoas. No fundo o problema não é dos que ousam existir confortáveis consigo mesmos dentro da sua bolha, comportando-se condignamente no espaço público, é dos outros, daquela percentagem de gente que acha que a sua bolha é maior que a dos outros e que, por isso, chocam gratuitamente com toda a gente e abarcam todos os espaços, o seu, o do outro e o público, não tendo cabecinha para perceber que todos temos direito ao mesmo tipo de bolha, a bolha que nos dá livre arbítrio e espaço para existir e ousar, simplesmente, ser.   

2 comentários

  1. Excelente texto.
    Acabámos todos por ter que aprender a quebrar estereótipos e a alargar as nossas mentalidades

    Beijinhos
    http://princesasemtiara.blogs.sapo.pt/

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