O verão da minha infância era os gelados, as férias lectivas intermináveis, os piqueniques com os amigos debaixo da alfarrobeira na casa da avó, os banhos de ribeira nas idas à serra com o avô Manuel e os mergulhos de piscina e mar com os pais, os primos e os tios. Era o acordar cedo e ter aulas de natação antes de ir passar o dia na casa da avó Albertina. O Verão era saber que religiosamente ao domingo íamos à praia, que não ia haver estacionamento para o carro, que ia ser um mar de gente e que à noite íamos ao café comer um gelado. Era os serões tardios na casa da Maria do Carmo e das outras vizinhas a jogar ao dominó e à carta. Era passar muitos dias com a Liliana, o Leonel, o Mauro, a Jaqueline, a Carolina e a Ana em aventuras que criávamos, em brincadeiras que fazíamos criando laços que até hoje não se quebraram.

Houve alturas em que, já com mais idade, o verão da inocência foi sendo substituído pelas férias no Alentejo na casa da Rita e as férias da Patrícia na minha casa, onde se conhecia um mar de gente nova. O Verão era os primeiros amores, as saídas à noite, o negociar com os pais as horas para chegar a casa. Era os primeiros acampamentos com o prof fixe que antes de terminar o ano lectivo nos levava para a Ilha de Tavira e nos dava liberdade total para existir. O verão era os dias passados no computador a escrever páginas e páginas de histórias inspiradas nas minhas próprias memórias e noutras que lia nos livros. Era o verão das possibilidades, dos telefonemas para os amigos, do madrugar para irmos de autocarro até à praia. Era o verão dos amores e desamores, do ficar acordada até tarde a sonhar e a ansiar pelos próximos dias.

Agora o verão é altura de abrandar. São dias de esplanadas, de tapas com os amigos, de boa conversa sob o céu estrelado. O verão é o pôr do sol a ouvir um concerto e a suspirar pela beleza que é a simplicidade da vida. É os fins de semana nas praias que fazem sentido, nos sítios onde nos sentimos bem. O verão sou eu, ele, a família e os amigos, sempre e inquestionavelmente. O verão acontece nas entrelinhas do trabalho que diminui e se torna mais ligeiro ou se não, torna-se menos significante, como algo que acontece no espaço entre uma diversão e outra. O verão é uma agenda cheia de planos de lazer, muitas fotografias para tirar e muitos livros para ler. O verão é a ligeireza dos dias, a vida que voa estonteante e nos atordoa com tudo o que tem de bom. O verão continua a ser tudo o que era desde a infância e mais, porque agora consigo parar e sentir uma felicidade imensa com o silêncio do fim do dia e as cores laranja com que o sol pinta o céu antes de se deitar.

E vocês gente bonita, o que vos traz o verão?

Pics via instagram (@vaniadmartins)

13 comentários

  1. Por cá o verão é sobretudo o canto sem fim dos pássaros, almoços ao ar livre (apesar de trabalhar o verão inteiro), churrascos e noites claras (há alturas em que não escurece por cá na Suécia). Beijinho

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    1. O canto dos pássaros... sim, também tenho disso por aqui. E que bem que sabe!

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  2. Que post tão bonito! Revi-me logo no negociar horas para chegar e nos acampamentos na ilha de Tavira. Na adolecencia também foi muito sair do trabalho às 2h da matina para irmos para a discoteca até as 7h para depois tomar o pequeno almoço modo zombie e irmos para a praia dormir. Quando não era discoteca era ir para a praia tocar musica e tomar banho às 4h da manhã, a água estava tão quente, assim como a areia, ainda do Sol do dia.

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    1. É tão bom recordar e saber que fizemos (e ainda fazemos) as maluquices que queremos. :D

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  3. Para mim, de há uns anos para cá passou a ser sinónimo de reencontro com a família, voltar a construir castelos de areia devido ao aparecimento do meu sobrinho, jogar bola com ele na água, e todas essas coisas boas! Sabe-me muito a "matar saudades"!

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    1. Fazer-nos rodear daqueles que gostamos e que gostam de nós é sempre tão, mas tão bom! :D

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  4. Vânia, que post tão bonito! Muito amor :)

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  5. Gostei tanto deste post! O meu Verão também foi evoluindo e hoje em dia é bem mais fugidio e acho que menos calmo porque tenho pressa de aproveitar o tempo que parece voar...

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    1. O meu também é menos calmo, mas é uma pressa que não cansa, pelo contrário. Daí eu o sentir como um abrandamento. Parece que tudo ganha outra ligeireza.

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  6. Gostei imenso, Vãnia.É um desfiar de vida que está nessas parágrafos tão bem delineados.
    Boa semana,
    Mia

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