Outono, a estação da monotonia. Sinto que, quando chega, arranca de mim o verão e leva-o para longe, afastando-me do sol que me aquece os sentidos. É ele que enceta a frieza anunciada do inverno e traz consigo as primeiras chuvas. Despe as árvores e mata-me a alma, deixando-me em estado um pouco letárgico. Não o amo, não o venero, habituo-me a aceitar-lhe o humor incerto e aproveito o que tem em si de bom, esse aconchego das mantas nas pernas, o chá reconfortante enquanto leio um livro e o pôr-do-sol mais lindo, num céu marejado de nuvens cor de fogo.

Ele chega. Chega a cada ano mais diferente, quente e incerto. Não é de hoje que me deixa prolongar até outubro as idas à praia, enquanto fingimos os dois que ainda não está por aí. Mas não dura sempre, sem que repare já me obrigou a rebuscar as roupas e sapatos mais quentes e quando dou por mim a terra está farta de água e dela brotam as primeiras ervas. 



As noites chegam mais cedo, húmidas e frias. Mesmo quando não são chuvosas, anunciam pela manhã uma certa orvalheira, presente em tudo o que ao relento ficou exposto. Nele, no outono, os dias nascem com um sol tímido e indeciso, cujos raios de luz deixam descobrir as cores da natureza morta que vai deixando no seu caminho.


Há nele uma certa nostalgia dos filmes monocromáticos, das pessoas que escolhem as roupas mais escuras e circulam apressadas pelas ruas, fugindo por entre as gotas de chuva. As casas são abraçadas pelo aspeto soturno dos ramos despidos das árvores e há uma pressa maior por encurtar o tempo na rua. As esplanadas despem-se de gente e as janelas refletem para fora a imagem de vidas confortáveis, iluminadas por lâmpadas que se acendem mais cedo.    














Prefiro-o ao inverno, mas não anseio pelas castanhas assadas, pelas abóboras, dióspiros e pêras, ou pelo cheiro reconfortante de um bolo de maçã com canela acabado de fazer. Aprecio toda a beleza que tem e a forma encantadora como nos permite fazer a transição para o frio, mas não esqueço que todos os anos é ele que me rouba o verão, e talvez por isso tenho-lhe uma certa mágoa. 

 Vamos lá espreitar que pedaços de outono captaram as minhas partners in crime?

11 comentários

  1. Vânia, este é sem dúvida o teu 6 on 6 que mais gostei, as fotografias estão B-R-U-T-A-I-S! Aquela primeira é mesmo a minha preferida, mas honestamente as outras não estão muito longe. Conseguiste transmitir tão bem a nostalgia que sentes - e ainda assim, fizeste tudo parecer tão bonito! Muito bom!

    Jiji

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    1. Também gostei muito do resultado. Obrigada Joana. :)

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  2. Que fotos fantásticas e o texto não lhe fica atrás. É assim o outono :)

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  3. Ai Vânia sinto o mesmo só que para mim é a transição de Outono para Inverno. No Outono ainda há dias solarengos e o frio é maior à tardinha e noite, durante o dia adoro andar de vestido leggins e um cardigan.
    Concordo com a Jiji foi o mês que mais gostei das tuas fotos, parece que utilizaste o close up como subtema e ficou tão giro! Mas a foto das molas e a preto e branco com o promenor do senhor de guarda-chuva roubou-me o coração. Tás lá miuda!

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    1. Tb percebi isso do close up nas fotos mas não foi propositado, simplesmente resultou duma grande necessidade de focar os detalhes e apanhar a "humidade" no outononal. A foto da senhora com o guarda-chuva resultou num dia em que começou a chover e a senhora estava apressada para entrar em casa. :)

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  4. Eu também sou uma moça de sol e verão, mas o Outono tem os seus encantos! As fotografias estão fenomenais!

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  5. Ok, já me decidi! Este 6 on 6 é sem dúvida o meu preferido :) que registos bonitos Vânia! Gostei especialmente das fotografias com as gotas de orvalho/chuva. Bons detalhes!

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    1. Tb gostei muito das fotos de todas, acho que estávamos mesmo inspiradas. :)

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