No sábado participei num workshop de fotografia nocturna de rua. Dupla dificuldade, não é? E tripla motivação, porque para ser sincera fiquei muito entusiasmada pela oportunidade de fotografar na rua, à noite (já tinha ficado com o bichinho desde o 6 on 6 de junho), e sobretudo acompanhada por um profissional (tanto que acabei por andar a observar e a conversar com o Vitor Pina muito mais do que estava preocupada em fotografar). Foi um workshop prático em que saímos mesmo para a rua e fomos conversando e testando de forma muito natural, enquanto interagíamos com as pessoas, comíamos castanhas assadas ou parávamos para trocar ideias nos sítios mais tranquilos. Como tenho memória curta e há meia dúzia de ideias (não só sobre fotografia nocturna ou de rua, mas sobre fotografia em geral) que me ficaram desta experiência, e que me pareceram dignas de registo, decidi partilhá-las por cá. Vamos lá saber quais?


1. Luz 
A fotografia funciona com contraste e para existir contraste é necessária luz. Não há como contrariar isto, e é aí que reside a dificuldade de fotografar à noite na rua. Nós fotografámos sem flash e sem tripé portanto andámos à procura dos focos de luz proporcionados pelas montras iluminadas, pelos candeeiros de rua ou pelas bancas dos vendedores. No caso dos retratos, algo tão simples como a lanterna do telemóvel pode ajudar mais do que o flash, porque não é tão forte ou uniforme, podemos posicioná-la de cima para baixo, de baixo para cima no rosto da pessoa, o que pode ajudar a criar um certo dramatismo ao rosto, ou candicidade, dependendo do que pretendermos. A luz tem ainda a vantagem de nos proporcionar uma excelente composição, se nos deixarmos guiar por ela. 

2. Antecipação


Na fotografia de rua é necessário ter capacidade de prever o que ainda está para acontecer. No caso de fotografar artistas, por exemplo, normalmente devemos tentar identificar um padrão de movimentos e a partir daí posicionar-nos, preparar-nos, e saber esperar pelo momento que queremos captar. Esta calma perante a mais fácil impulsividade de estar a fotografar tudo vai-nos permitir captar o momento exacto que pretendemos, aquele em que ele está no ar, ou em que o seu rosto ou corpo tem a expressão X. A não impulsividade irá evitar que a máquina não esteja ocupada a processar outra imagem quando chegar o momento de tirar "A" fotografia. Antecipar implica parar, observar, esperar e perceber para onde a pessoa vai, entender como ela se vai posicionar junta da fonte de luz que temos e antever como deveremos nós posicionar-nos para não estar em contra-luz, ou não captar a pessoa depois da mesma já ter passado.

3. Técnica
A técnica é sempre aquela questão tão temível, porque dá a sensação que é tão complexa que jamais a conseguiremos dominar. Acontece que na fotografia a técnica está muito ligada com a especialização, com o percebermos qual é o nosso estilo fotográfico e aperfeiçoarmos isso praticando e testando. A fotografia funciona por tentativa e erro, a técnica aprende-se fazendo, corrigindo e não receando tentar. O nosso estilo pode ser macros, fotografia de rua, retrato, paisagem... percebendo o que é que nos motiva fotografar e criando, por exemplo, projetos fotográficos (em vez de simplesmente fotografar ao acaso) vai permitir-nos aperfeiçoar a nossa técnica. Será este aperfeiçoamento que nos tornará melhores e reconhecíveis a longo prazo.

4. Olho
Já tinha lido sobre isto e o Vitor reforço-o o tempo todo. O equipamento é um pequeno detalhe na fotografia e ao contrário do que muitas vezes se pensa, é o fotógrafo que conta realmente. A máquina fotográfica, por muito boa que seja, não tira fotografias sozinha. O importante a treinar é o nosso olho, a nossa capacidade de ver algo e definir a composição fotográfica, antever o movimento, perceber a luz e sacar uma boa fotografia. O equipamento existe para nos apoiar, mas não precisamos obrigatoriamente de um equipamento profissional para tirar boas fotografias. Na verdade justifica-se fazer um upgrade no equipamento quando sentimos que o que temos já foi esmifrado ao máximo e precisamos de um que nos permita avançar mais. 

5. Tempo


O tempo é importante na fotografia, porque ele encerra em si um resgate à memória. O ato de fotografar implica que se está a congelar o tempo e muitas vezes uma fotografia poderá só vir a fazer sentido passados muitos anos. Muitas fotos tiradas nos anos 80, 90, só foram reconhecidas anos mais tarde justamente pela capacidade que têm de resgatar as frações de segundo de determinada época ou acontecimento. Para o próprio fotógrafo, muitas vezes as fotografias tiradas numa vida só farão sentido anos mais tarde, quando olhando para elas se percebe que podem encerrar em si um projeto maior, um projeto de vida.   

6. História
O que torna uma fotografia de rua diferente de outra é a capacidade de contar uma história. Se não deixa espaço a que se conheça e saiba um pouco mais sobre os elementos que a compõem, então devemos questionar-nos se  valerá ou não a pena enquanto fotografia.

7. Interação


Não se faz fotografia de rua sem interação (parece-me que esta foi, eu diria, a maior aprendizagem da noite, porque não me tinha ainda questionado sobre isto). O fotógrafo tem que encontrar em si essa capacidade de abordar o outro, de comunicar e de transformar essa barreira que se cria entre as pessoas e o medo que lhes roubem a imagem. Pelo que observei do Vitor havia um interesse genuíno na história do sujeito que estava a fotografar, uma amabilidade e naturalidade na abordagem da pessoa, o pedir para tirar a fotografia seguido de um elogio (que me parecia desmanchar a cara resmunguenta de qualquer um(a)), o ter o cuidado de mostrar a fotografia no final, ou de brincar com as situações e aligeirar o ambiente. Claro que isso é algo muito dele e eu, por exemplo, não o conseguiria fazer assim, mas deixou-me a pensar que temos que encontrar em nós essa forma de interação, que ela tem que existir e é uma componente essencial na fotografia de rua. Em última instância tem que haver respeito pelo fotografado, que não pode ser olhado como um mero objeto.

Ficou-me esta questão a bailar na cabeça (que na verdade não é só uma!): qual é o meu estilo? O que é que eu gosto de fotografar? Qual é a minha técnica? No que é que me quero aperfeiçoar? Que projeto fotográfico quero constuir na minha vida? Ainda estou a conhecer-me na fotografia e cada vez com mais vontade de a explorar, de me explorar. Palpita-me que por aqui ainda voltarei a falar sobre tudo isto. :)  

11 comentários

  1. Que boas dicas e as fotografias ficaram lindas ;)

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    1. A sério que achas que ficaram lindas, as fotos? lol devo ser demasiado exigente comigo mesma, achei que estava tudo mal em todas elas. :D

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  2. Já fiz um workshop desses. Adorei e aprendi muito. Fantástico :)

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    1. Fiquei com vontade de repetir este modelo de workshop mas não à noite (e não no inverno, porque estava um briol!). :D

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  3. Nao posso crer, um workshop de fotografia no algarve, viva, atirem os foguetes!! 😊
    Parece que estou a ouvir o meu prof de fotografia a falar. Essa de falar com as pessoas é tao real, faz toda a diferença. Ate um sorriso e depois um gesto a perg se podemos tirar a foto.
    Então é isso, o 6 on 6 ja está a dar os seus frutos e eu aqui deste lado =)
    Podes postar mais sobre fotografia que estamos a adorar!

    *SORTEIO DO LIVRO EPIC BLOG*

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    1. E mais do que no Algarve, aconteceu na minha santa terrinha onde nada se passa, imagina lá! Muito à frente. Foi mesmo uma experiência fixe. Tinha vindo mesmo a calhar antes do 6 on 6 com o tema "noite"
      :D Preciso de mais inputs destes, dão uma motivação extra. :D

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  4. Tenho de fazer um workshop deste tipo!Muito bom o post:

    Bom dia Vânia

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  5. Uau. Ando cada vez mais apaixonada por fotografia e adorei este post. O que dizes e o que mostras. O olho e a história. A técnica, a luz. Quem gosta de fotografia, anda sempre pronto a dar flashes por ai, mesmo sem formação (ainda), como eu, agradece as dicas!
    Parabéns!
    andreiamoita.pt

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