Off sight | An ancient country house

by - 31.1.17


Na última publicação do 6 on 6 já tinha ficado no ar a dica de que poderia estar para breve um novo projeto fotográfico, resultante da vontade de alimentar (e aperfeiçoar) o bichinho que ficou com este último ano a fotografar. Pois bem, aqui está ele, o "Off sight". 



Tudo começou com a Marta novamente a desafiar-nos, e desta vez deu a ideia de fotografarmos edifícios abandonados (aqueles monos que parecem esquecidos no tempo, ao sabor das intempéries, e carregados de histórias, à espera que o cansaço os vença, ou que alguém lhes perceba algum valor). Nós achámos boa ideia, e para já começamos com esse tema, sabendo que em qualquer altura podemos mudar para outras abordagens, porque concordámos que manter sempre a mesma temática pode ser esgotante. Poderão esperar as publicações no último dia de cada mês, portanto é só ficarem atentos aos blogues.


E quem integra o desafio? As meninas do costume (a Joana Sousa do blogue Jiji, a Catarina Coelho de A Girl in Mint Green, a Catarina Sousa de Joan of July e, last but not least, a Marta Coelho de Viver a viajar). Ficou no ar, nos nossos debates sobre o desafio, a possibilidade de integrar pessoas convidadas. Vocês próprios, se quiserem pegar no tema e juntar-se a nós, serão muito bem vindos! Why not?


O nome "Off sight" vem exatamente da ideia de usar a fotografia para mostrar o que poderá estar longe da vista, o incógnito, o detalhe, o imperceptível num primeiro olhar. Pessoalmente gostei da ideia de começarmos por fotografar edifícios abandonados, porque sempre tive uma certa curiosidade por perceber o que se esconde para lá daquela primeira visão que nos traz um edifício em fim de linha. Isso implica por vezes termos que pular a cerca, passar a corrente que diz propriedade privada e ter a audácia de ir à descoberta. Foi o que fiz, literalmente, nesta velha casa de campo. 

Há muitos anos que passo naquela estrada e vejo aquela casa com ar esquecido e paredes sombrias, mas nunca antes tinha trespassado para lá da placa que indica acesso proibido, para a explorar. Quando finalmente parei o carro e me aproximei percebi que há muito mais para além da parede que se avista da estrada. Na verdade há uma fachada linda cheia de janelas (já sem vidros) e com uma ainda oponente porta, tudo de madeira. Nos dias de sol, como era aquele em que por ali andei, a própria incidência da luz na parede caiada de branco dá um ar mais vivaz à casa e cria umas sombras interessantes das árvores, também elas com um ar selvagem e maltratado, plantadas naquilo que um dia pode ter sido uma bela horta ou jardim.


O mais entusiasmante foi perceber que uma das janelas, como as restantes, cortinada por tábuas de madeira, tinha uma pequena abertura no lado superior. Eu não consegui espreitar porque não tinha por onde subir, mas esticando os braços consegui que a máquina entrasse para fotografar, tal como a luz incidia janela adentro. E percebi depois, pela fotografia que tirei, um conjunto de relíquias lá deixadas, tal como um velho colchão de palha, umas cadeiras antigas cuja madeira parece em muito bom estado e duas velhas malas de viagem.

Se fizesse um rewind, imaginaria-a cheia de vida, com janelas abertas, de luz penetrante a iluminar os móveis. Uma sala de jantar com as cadeiras de madeira à volta da mesa e no centro uma jarra com flores naturais. Pelos carrinhos deixados e a cadeirinha de sentar o bebé à mesa, imagino uma casa com crianças. Crianças que, já mais crescidas e marotas, saíam a correr com uma fatia de bolo na mão, ainda quente a acabado de roubar da cozinha. Vejo-as a sentarem-se na murada à frente da casa à sombra das árvores, a devorar a doce recompensa, fruto das suas travessuras. Imagino vida, risadas, trabalho e candicidade, lado a lado com a rudez de outros tempos.  



No entretanto, viajo no tempo até uma data mais perto do presente. Uma altura em que tudo isso deixou de fazer sentido, em que os tempos mudaram e aquela deixou de ser a casa principal de alguém. As ruas de calçada foram engolidas pela erva e as crianças deixaram de o ser. Os pais e/ou os avôs morreram e com eles o tempo por ali parou, as prioridades mudaran. Quebrou-se o encanto, fecharam-se as janelas para a luz não entrar. Cerrou-se a porta e ficaram as malas de viagem, com poucas ou muitas histórias para contar. Ficaram porque não já havia mais nada para levar. Quedaram-se no escuro com o velho colchão de palha, de tecido corroído pelos dias a passar. Ficaram memórias de quando eram crianças e as paredes escurecidas, de frisos cor-de-rosa pintados à mão. Mantiveram-se as portas fechadas e as divisões deixaram de comunicar-se. As cadeiras por ali foram deixadas, sem mesa para as acompanhar, sem gente para nelas se sentar.      


É o que acontece com os edifícios abandonados, com as casas que parecem ser de ninguém. Ficam corroídas pelos minutos, trespassadas pela inutilidade do tempo, à espera que um dia alguém as ressuscite, que lhes abra as janelas e que as gargalhadas e os dias felizes voltem a ecoar.



Que outros edifícios abandonados há por aí? Muitos mais do que aquilo que reparamos normalmente, porque a nossa vista se habitua a ignorá-los. E estou curiosíssima por saber por onde andaram as minhas off sigh girls. Querem vir comigo espreitar?


You May Also Like

11 comentários

  1. Não sei se gostei mais das fotografias ou do teu texto - e gostei imenso dos dois! As tuas imagens estão tão congeladas no tempo e tão cheias de vida que é impossível não viajar pela história que nos contas. E aquela terceira foto está qualquer coisa!

    Jiji

    ResponderEliminar
  2. Adorei as fotos, mesmo! Mas fiquei rendida à forma como escreveste o teu post e sobretudo À forma como conseguiste captar a essência desta casa, graças à tua imaginação. A foto com os objectos é arrepiante! Saber que um dia pertenceram a alguém, a alguém que lhes deu vida! Fantástico!
    Já estou a seguir as tuas redes sociais para poder acompanhar melhor o teu blog. Se quiseres passa no meu, e se gostares segue também :)
    Beijinhos.
    www.batomagridoce.com

    ResponderEliminar
  3. Adorei as fotografias. Parabéns* Adorava poder participar no desafio, já que a fotografia é o meu mundo. Como faço?

    ResponderEliminar
  4. Sou menina para me juntar ao clube. Último dia de fevereiro, certo? :)

    ResponderEliminar
  5. Adorei as fotos.... e aquela do interior da casa tocou-me! :)

    ResponderEliminar
  6. Sabes que ao falares sobre como seria o passado naquela casa consegui viajar no tempo contigo? Caraças pá, tens mesmo jeito para escrever mulher!
    Esta casa é enorme ou é só impressão minha? Aquela segunda foto a preto e branco ficou digna de ser emoldurada e a da porta também está muito boa. descobri com este desafio que o que mais gosto de fotografar em lugares abandonados, para além do seu interior, são as janelas e as portas.

    Uma pena que não conseguisses entrar para fotografar em pormenor esses objectos todos, mas olha, ao menos já nos mostraste o que havia lá dentro e que objectos mais bizarros, aqueles carrinhos de bebé são no minimo macabros :P

    A ver se combinamos para fotografar juntas, quando for aí ao Algarve. Aceitas o desafio? :)

    Viver a Viajar

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim, a casa é enorma. E ainda tem uns armazens ali ao lado, esses já sem telhado.
      Combinamos sim, fotografar juntas. excelente ideia! :D

      Eliminar
  7. Tal como a Joana, não sei do que gosto mais, se do texto se das fotos. Os dois tão bons :) adoro como consegues acompanhar as fotos com palavras tão bonitas. Gostei a revelação do que ainda resta no interior da casa! Deve ter sido uma surpresa e tanto, não? Apontar a máquina lá para dentro e poder cuscar o que lá estava. Desde que alinhamos neste desafio que ando mais atenta aos edifícios abandonados aqui da zona. E estou a reparar que são bastantes! Nunca tinha dado grande atenção e muitos deles passavam-me ao lado. Dá-me pena ver casas assim, que antes deveriam ter tanta vida e agora estão assim degradadas. Tal como tu, também me ponho a imaginar o que poderiam ter sido antes :)

    ResponderEliminar