Querida Clara,

Por estes dias almocei com o António e no meio da conversa nem me lembrei de falar-lhe de ti. Foi melhor assim, porque não queria deixar meias verdades entre nós. Na verdade acabou de me ocorrer que os três somos uma trilogia que recordas com carinho dos tempos da universidade, o que explica o livro do Dalai Lama que nos ofereceste há uns bons anos atrás, pensando que tens algo que nos agradecer. Não tens, na verdade. Mas voltando ao livro, comecei a lê-lo mas ainda não o terminei. Achei que é o tipo de livro para ler capítulos ao acaso quando precisamos de nos encontrar (ou, quem sabe, de nos perder).

Continua igual a si mesmo, o António, e momentos com ele lembram-me que há mesmo pessoas com quem é possível ter relações sinceras e verdadeiras de amizade, sem cobranças e nutridas de um respeito e admiração profundos. Tudo flui nas nossas conversas como se nos tivéssemos encontrado ontem, o que é muito parecido ao que tenho com os meus melhores amigos.  

As semanas têm voado este ano. Na verdade o tempo esmaga-me com a sua rapidez e acho sempre que a maior parte dos meus dias não deveria ser passada a trabalhar. Não que não goste do que faço, até porque me sinto uma privilegiada de muitas formas, mas às vezes questiono quais são os propósitos disso e onde me vai levar. No fundo já sei que o que é importante e que é intemporal e inquestionável são os meus, e com esses acabo por passar muito menos tempo do que gostaria. O cansaço esmaga-me as ideias por vezes, rouba-me um pouco a inspiração e tira-me a plenitude que gosto de ter. Deixa-me menos disponível para a vida. 

Ando em projetos com o Sérgio para arranjarmos casa, mas caramba, às vezes penso que mais vale estarmos quietos. Parece tudo demasiado difícil, não há um sítio que pareça adequar-se, o dinheiro é sempre uma questão esmagadora e as indecisões tiram-me energia, matam-me os sonhos, cansam-me. Pelo meio disto tudo penso que sempre quis ter uma casa minha, nossa, mas depois interrogo-me sobre o que é que isto de ter uma casa significa realmente.

Sinto, eu mais do que ele, que preciso de fazer isto para crescer, para dar mais um passo em direção ao futuro. Preciso de fazê-lo pelo presente, porque me parece ser o momento certo. Na verdade isto provoca-me um misto de receio e excitação que são bons. Tenho borboletas no estômago! Acho que estava a precisar de um projeto grande para acarinhar, para me manter em andamento, com rumo. Isto trouxe-me, apesar de tudo, uma energia renovada e expectante que também me deixa feliz.

Às vezes respiro fundo e penso que mais vale não apressar decisões, o tempo resolve, sempre, e torna-nos as ideias e as certezas mais claras. É o dom que lhe assiste, o de nos trazer alguma tranquilidade. Pergunto-me se ele estará a ter esse mesmo efeito em ti, o de trazer-te alguma clarividência e ajudar-te a encontrar o que procuras. Espero que sim! 

Beijinho,
Vânia.

1 comentário

  1. Por vezes perder-nos é tão importante como encontrarmo-nos...com ou sem ajuda do Dalai Lama.

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