Fotografo desde 2005, altura em que as digitais já tinham aparecido mas eram caras e as mais acessíveis nem por isso eram muito boas. Comprei uma Kodak que rabeia até hoje. Tinha as suas limitações, mas uma lente e censor que me permitiam tirar fotos com boa definição, e servia bem para aquilo que eram as minhas competências na altura. Iniciei as minhas viagens uns cinco anos depois, e apesar de não andar a saltitar pelo mundo tanto quanto gostaria, tenho colecionado fotos de pessoas. São fotos que me fazem sentido, outras nem por isso, mas vão ficando guardadas até que um dia mais tarde me apeteça olhar novamente para elas. Pois bem, hoje foi o dia!

Não sei qual a minha definição de uma foto bonita, e por isso é que nunca consigo apaixonar-me pelas fotos que tiro. Gosto e desgosto cada vez que olho para elas, vejo-lhes falhas, odeio as falhas. Noutros dias é justamente esse relaxamento e falta de regras que me atrai, porque acho que têm algo para dizer, que contam uma história. Não sei tirar fotos perfeitas, mas gostava muito de saber tirar fotos que contem histórias.


Houve um dia em que decidi deixar de me "chatear" com as pessoas e o facto de estarem sempre à frente dos locais que eu queria fotografar. Não esperei mais que se afastassem, nem fugi delas, deixei-as estar à frente da minha lente. Na verdade os lugares só fazem sentido por causa delas, das pessoas, ou então seriam só sítios inanimados e sem utilidade. Sem vida. Por isso inverti a minha lógica naquele dia em que em Nantes fotografei os ténis vermelhos de um rapaz que estava relaxado, num fim de tarde ao pé do rio, a ouvir música ao vivo, proveniente duma festa a decorrer num barco atracado. Não me lembro da cara dele, só me fixei nos ténis e no cruzar de pernas relaxado. Nesse dia comecei a trazer comigo para casa as pessoas com quem me cruzava nas minhas viagens.


Não sei a história das pessoas, mas posso imaginá-la. Na verdade um dia fiz o exercício de começar a contar a história do rapaz dos ténis vermelhos. Vi-lhe a vida toda só pelos ténis, percebi-lhe os vícios e os gostos, entendi-lhe a forma de pensar e familiarizei-me com ele. Provavelmente nada bate certo com a realidade, mas isso não importa minimamente. Aquela foto fez-me pensar naquela pessoa e no que lhe terá acontecido até chegar àquele preciso momento, ou no que terá ocorrido depois daquele segundo em que o fotografei.  


Estas fotos são algumas das que gosto só porque sim. Umas têm movimento e canalizam-nos o olhar para determinado ponto, outras são dispersas e imprecisas. Algumas captaram-me apela luz. A forma como se posiciona nos espaços e toca nas pessoas, ou nos lugares, é sempre algo que me atrai. A última é uma cadeira deixada por alguém com um saco de cereais para venda. E há aquelas pessoas em segundo plano, relaxadas, enquanto a cadeira espera que se venda alguma coisa. Esse dia foi forte, estava a visitar alguns dos bairros mais pobres de Quelimane e percebi que há um mundo que tem tanto de bonito como de feio, e que habita além do meu.

Vamos lá espreitar os trabalhos das aventureiras deste mês?

10 comentários

  1. Gostei muito das tuas fotografias. Fizeram-me lembrar as que os meus pais tiraram quando eram jovens. Acho que tenho de recuperar umas fotografias antigas. Obrigada pela partilha também dos pensamentos :)

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    1. Um dia penduro-as numa parede (quando me apetecer comprar molduras e fazer furos). :)

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  2. Adoro as tuas fotografias :). Aquilo que é o mais mágico nas fotografias é o facto de contarem histórias, e é o que as tuas fazem.
    Gostei muito do teu blog, a estética, as fotos, e os textos escritos de forma cuidada. Muito clean, simples mas relevante.
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  3. Estão lindas as fotos. Gosto principalmente da do Hard Rock e da do rapaz das sapatilhas vermelhas. :)

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    1. O rapaz mistério das sapatilhas vermelhas. :)

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  4. Mais uma vez, não sei se gosto mais das tuas fotos ou das tuas palavras. Mas gosto muito de ambas. E vejo a fotografia como tu - acho que só faz sentido contando uma história, faz sentido quando retrata um momento, e qualquer lugar e cada momento tem as suas pessoas, e só assim se completa. E tu tens um excelente olho para os momentos :) adoro a primeira foto e aquela da rua em que fotografaste as pernas.

    Jiji

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    1. A primeira é de Moçambique e a das pernas foi numa rua em Roma.

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  5. Adoro as fotografias. Gosto principalmente da senhora com os miúdos no café, muito bonita :)

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    1. Também gostei. Uma asáfama de gente a passar na rua lá fora e eles ali calmos e tranquilos junto à janela.

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