Querida Clara,

Lembro-me do dia em que tirei esta foto. Estava com o meu amor no cimo da montanha mais alta de Portugal continental. Apesar do frio estava um belo dia de sol e poucos instantes antes ou depois de captar esta paisagem eu estava ou estaria sentada entre as rochas quentes, tranquila, a contemplar o horizonte nublado e de tons pastel. Em dezembro terão passado três anos desde esse dia.

Nesse momento, nesse preciso instante em que contemplava, lembro-me perfeitamente de ter tido um daqueles momentos em que a vida me faz perfeito sentido. Pareceu-me, nesses segundos, que estava no lugar certo a fazer o que estava correto. Tenho tido essa sensação de preenchimento, de felicidade e relaxamento total noutros momentos ao longo da minha vida, e o que vejo de comum em todos eles é que acontecem quando paro e contemplo. 

Já tive um momento desses contigo, naquele fim de tarde em que no Stupa eu lia um livro enquanto tu cantavas as tuas orações budistas. Aconteceu quando levantei os olhos do livro e vi o sol a pôr-se à nossa frente. Tu continuaste a cantar, areando as taças tibetanas, e pareceu-me simplesmente o cenário perfeito.

Ultimamente tenho-me lembrado de ti e dos teus dias de silêncio. Nunca nestes anos todos me fez tanto sentido as tuas tentativas de viver sem palavras. Falavas-me sobre como elas magoam e destroem, como podem ser mal interpretadas. Tens razão e só agora me apercebi disso. O que dizemos, ou nos dizem, não pode ser desdito ou apagado, e as palavras destroem tanto quanto constroem. Em boa verdade, perdemos facilmente o controlo sobre elas e o efeito que têm. O vento não as leva, como se costuma dizer, mas arremessa-as contra nós e colam-se-nos aos sentidos para sempre. Se deixarmos abafam-nos e corroem-nos por dentro.

Tem-me apetecido tanto não dizer nada, não pensar nada, não querer nada... só deixar-me estar silenciosa enquanto as mágoas em que todos se envolvem por causa das malditas palavras passam! Este ano está mesmo a ser surreal, em todos os sentidos.  

Acho que domingo vou ao Stupa, para contemplar.

Beijinho,
Vânia.

3 comentários

  1. .

    Vânia, se te "der na telha" e
    tu fores ao meu blog na intenção
    de seguir-me como eu há muito te
    sigo, não te espantes comigo falando
    da mulher. Talvez o assunto não seja
    o meu forte, mas o meu fraco eu te
    garanto que também não é.

    Um beijo, bom ano novo e,
    vai lá!

    silvioafonso


    ç

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